Olá Amigos,
Escrevi este texto a partir da insistência de uns amigos, que me convenceram a deixar isso registrado para não perder nas lembranças do tempo. Então fiz. Agora compartilho com vocês.
O texto é uma prosa na verdade sobre uma história que vivi com o escritor Rubem Alves, os fatos são todos verdadeiros a forma de contar é que beiram o realismo fantástico, porque achei que simplesmente narrar os fatos perderia o brilho de toda a emoção com a qual me envolvi neste percurso.
Boa leitura
Beijos,
Deyse
Para Vanessa, Helena e Jorge, que assopraram essas idéias.
Para Mauro, Myrna, Eliane e Si, sempre os primeiros a saber.
Para Climene, a professora que acrescenta pitadas de sal.
Para Ivonete, Dayse, Suzana e “Paty” que se alimentaram também.
Para Rubem Alves que apimentou tudo!
Certamente os dias são feitos de 24 horas incrivelmente espantosas, onde tudo pode acontecer, inclusive nada.
Naquele dia, ela estava feliz, justamente porque aquele dia de tão esperado já havia existido em seus planos.
Pensou, milimetricamente, cada passo, conferia a programação a todo instante feito uns e outros que conferem insistentemente se trancaram bem a porta, o portão, a fechadura, o cadeado.
Nada podia dar errado, pelo menos naquela hora.
E não deu! Pelo menos errado, naquela hora. Hora do encontro.
Não havia aparentemente um encontro marcado entre eles, mas ele foi porque marcaram, ela foi porque marcaram com ele.
Ele, claro esperava entre outros, por ela.
Ela, claro, esperava exclusivamente, por ele. Esperava a hora em que frente a frente anunciaria, como todo mundo, mas apenas para ele: Gosto muito do que escreve. Tenho grande estima por ti.
E assim fez. E assim acabou aquela hora, exatamente assim: sob controle!
No entanto o que acabou foi aquela hora, porque aquele dia engatou os próximos sessenta minutos num instante de surpresas. Surpresa é uma palavra que é condimento da palavra tempo. Por causa dela que ele pode cozinhar à vontade deliciosos espantos.
Assim que encerrou o protocolo, ela foi acompanhar a irmã para comer uma empadinha. Poderiam ter comido tantas coisas, mas como coisa nenhuma acontece por acaso, a empadinha dá, agora, uma certa empatada no tempo.
Surpresa: se encontraram no corredor! Ela, tendo em suas mãos o livro escrito por ele, segurando-o firme por dois bons motivos: o primeiro porque era um livro especial para ela. O segundo, porque ele havia autografado na minuciosa hora anterior.
Ao cruzarem os caminhos, um espanto!
O livro, troféu que ela tinha nas mãos, foi escrito em parceria dele com o amigo que o acompanhava naquele exato momento!
O amigo dele, impressionado com o fato de encontrar alguém segurando seu livro, se prontificou a autografar, feito uns e outros que, num estado de grande fome, se mobilizam para arrumar a mesa.
Mas embora estivesse tudo à mesa, a mesa ainda não estava pronta.
Ele tentou ajudar, ofereceu os temperos, apimentou toda a história.
Diante de sua generosa sensibilidade e bom humor, olhou para ela um olhar bem olhado, como se preparasse o que ia dizer, igual cozinheira que antes de servir, oferecer, experimenta seus feitos.
Disse-lhe: Sabia que meu amigo é um bom partido? Ela, que não esperava por isso, ficou sem ação. Não disse nada, não fez nada, afinal de contas não sabia agir no improviso. Preferiu esconder-se na sua timidez.
E assim foi que um pouco antes dessa hora se acabar, constatou que perdera uma oportunidade e tanto, a de dizer que também ela era um bom partido!
Aquele dia cronologicamente acabou, porém estava apenas começando no calendário às avessas do tempo.
Eles se distanciaram, mas não muito, pelo menos ela que guardava na sua ilusão a possibilidade de dar a resposta que foi alimentada apenas na cabeça dela.
E assim de tanto sonhar, aconteceu. Os sonhos são mesmo os temperos da alma! Quando se realizam nos dão à impressão de refeição completa. Saciam corpo, mente e espírito.
Houve um segundo encontro.
Dessa vez ela esperava o encontro como quem apetitosamente quer repetir um prato. Queria alimentar o que ficou faltando.
Horas antes da hora extrema ela escreveu uma carta para o amigo dele, relembrando o primeiro encontro. De modo muito sutil finalmente, mas bem finalmente, quase no fim da carta, disse que ela também era um bom partido. Colocou a carta num pacotinho e, para que fosse degustada com atenção, acrescentou ao pacotinho um pote de geléia de pimenta, um sabor tão inusitado e exótico quanto esta história.
Na hora marcada, enfrentou fila para chegar até ele mas, mais do que isso, golpeou sua timidez e o medo que por vezes a impedia de seguir adiante.
Quando chegou sua vez, fez uma expressão tão séria e tão doce, tal qual a geléia do pacotinho, cujo sabor combina incrivelmente o forte com o suave. Disse-lhe: Preciso de um favor seu.
Ele, atento ao mundo ao seu redor, percebeu que aquele era um momento sublime para ela, por isso incorporou a mesma expressão dela e disse: Sim, o quê?
Ela, rapidamente, disse: Preciso que você entregue isso ao seu amigo, deu nome e sobrenome para que ele não ficasse em dúvida.
Ele, muito sapeca, captou o sonho dela. Sonharam juntos, cada um ao seu modo, pelo menos os três eternos segundos em que contemplavam um o olhar do outro.
Brincando, ele perguntou: o que tem aqui? (segurando com delicadeza o pacotinho).
Uma geléia de pimenta, respondeu sorrindo.
Ele arregalou os olhos, como quem tivesse sido aguçado em suas vontades. Perguntou: por que só pro meu amigo?
Ela desconcertadamente vermelha, desculpou-se oferecendo uma resposta perto da dimensão pragmática, longe do apetite de seus sonhos. É porque seu amigo gosta de cozinhar!!!
Ele sorriu, como se tivesse entendido que a geléia era de pimenta porque não era assim tão doce, guardava a mistura e confusão de outros sabores. Então perguntou para ela se queria falar com o amigo.
Ela fez que sim com a palavra, fez que sim com a cabeça, fez que sim com o corpo todo, sacudindo-o, feito uns e outros que chegam a dançar de alegria quando constatam que estão diante do prato predileto.
Ele, tirando o seu celular do bolso, com uma mão ligou para o amigo, com a outra pegou a mão dela para que não fugisse, não que ela fosse capaz disso, mas ele por certo percebeu que se não a segurasse, ela alcançaria as nuvens.
O amigo atendeu. Ele brincando, olhando para ela e falando com o amigo, disse: Estou aqui com uma velhota, horrorosa, e ela vai falar com você. Passou o telefone para ela.
Ela rindo dele, rindo da situação, rindo de nervosa que estava, pegou o celular às gargalhadas.
Depois das educadas saudações, não sabia mais o que falar, mas não faltaram palpites de toda aquela massa de gente que estava ali, que foi encontrar com ele, que foi aprender com ele, ouvi-lo falar, experimentar a possibilidade de enxergar um jeito novo de olhar para a educação, assim livre e fraterna para transformar os momentos, os saberes. Feito chef que mistura vários alimentos de cores, formas, texturas, cheiros e histórias em um alimento único, ímpar.
De todos os palpites, escolheu o dele. Palpite é feito receita incompleta que alguém olha, suspeita e julga com impecável segurança a hipótese de que o ingrediente que está faltando é tal, e se você acrescentar vai dar certo, ficará uma delícia.
Ela disse para o amigo dele que estava lhe enviando um doce, uma geléia de pimenta. O amigo surpreso, gentilmente agradeceu.
Despediram-se. Ela não quis falar toda a história, não porque não tinha interesse que o amigo dele soubesse, mas porque ali, naquele lugar, o bom partido não seria o único a ouvir o porquê a bom partido estava lhe mandando uma geléia, muitas pimentas e alguns espantos.
Desligou, entregou o telefone para ele que incansavelmente sorria, conversava, distribuía autógrafos. Ela admirou isso dele. De estar ali, simplesmente ali, inteiramente ali, singelamente ali. Então concluiu, em pensamento e no coração: Ele, o Rubem Alves, acima de um bom escritor, é uma pessoa fascinante!
Ela sorriu, ele perguntou se o endereço dela acompanhava a geléia. Ela confirmou. Ele disse, com voz confiável, então pode deixar que eu entrego! Ela suspirou aliviada.
Antes que ela fosse embora, ele acrescentou mais uma pitada de sal: Meu amigo é tão bonito.
Ela não ficou surpresa, pois já tinha notado a boniteza do amigo naquele primeiro momento, aquele do espanto!
Pronto! A mesa agora sim estava pronta.
Eles se despediram e o dia acabou ali, mas não as possibilidades de aprender e se divertir com as lembranças.
Ela aprendeu que uma pitada de sensibilidade faz toda a diferença no sabor que a vida, abundantemente, oferece todos os dias, todas as horas.
Mais tarde, aprendeu que a expectativa, na verdade, não passa de gulodice.
E bem mais tarde se divertiu escrevendo esta história em que tudo aconteceu, inclusive nada!
Novembro 23, 2006 at 6:54 pm
Minha linda Deyse, você sabe que sou a primeira devoradoura de seus textos, aliás tenho certeza que seus textos, contos, poesias são escritos com muita PAIXÃO.
Abraços
Mãe
Novembro 24, 2006 at 1:29 pm
Viu só gúria como sempre tive razão em relação ao seu talento como escritora.
Beijos e muito sucesso para vc.
Novembro 25, 2006 at 2:02 pm
Linda a história…
Já tinha escutado em outra versao, mas o seu estilo Rubem Alves de escrever dá o toque final… simplesmente encantadora… como vc minha amiga…
Beijinhos…
Novembro 25, 2006 at 5:10 pm
Adorei a foto, é mesmo Deyse Linda
Novembro 26, 2006 at 8:48 pm
Ser tia da Deyse não é uma honra!
Passar alguns momentos com ela me remete ao Provérbios 17.22 (quer saber o que diz…leia-o).
Quem tem a Deyse como companhia tem remédio para a alma!!!
Beijos: Tia KIKI
Dezembro 3, 2006 at 9:23 pm
Deyse, Maravilha os seus textos.
Coloquei seu blog em “meus favoritos” no meu PC. E você, há muito tempo, é uma das “favoritas do meu coração”.
Te amo!
Dezembro 5, 2006 at 6:37 pm
Posso me considerar previlegiado alem de tio sou padrinho desta menina meiga,carinhosa tenho orgulho de vc.
Beijão – Tio Beto.
Julho 25, 2008 at 8:11 pm
Linda a foto, vc e tudo que diz.
sou seu fã.
Beijos
Outubro 11, 2008 at 4:54 pm
Olá Deyse, muito bom procurar uma receita na net e encontrar o seu texto! Receita pra alma alimento pra vida! Por favor, continue ecologicamente trabalhando em prol da recuperação do encantamento pela vida! Ecologia profunda: reflorestamento do espírito!
Obrigada,
Mia.
Maio 29, 2009 at 11:29 pm
Essa é a mulher, minha querida sobrinha Deise, linda por fora, maravilhosa por dentro, e com certesa já caiu nas graças de Deus.
Deus abençoe